Estrutura do Projeto para TFC
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Pobreza e desenvolvimento

Publicado: novembro 1, 2013 em Sociologia

Os países pobres caracterizam-se:

retirantesportinari

  • Baixa renda per capita (por cabeça);
  • Altos índices de analfabetismo;
  • Frágil estrutura sanitária;
  • Baixa taxa de poupança;
  • Estrutura produtiva desequilibrada;
  • Elevadas taxas de desemprego;
  • Grandes desequilíbrios na distribuição de renda;
  • Elevadas taxas de crescimento da população.
  • Taxas elevadas de mortalidade infantil;
  • Má distribuição da propriedade de terra;
  • Divida externa elevada;
  • Economia controlada em partes por empresas multinacionais;
  • Corrupção  generalizada;
  • Abismo entre ricos e pobres;
  • Desrespeito aos direitos humanos.

 Ricos e pobres no Brasil

  • O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo
  • A qualidade de vida é baixa.
  • Classificação da ONU (Organização das Nações Unidas) em Outubro de 2009 ocupava a 75ª posição na escala do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), entre 182 países estudados.
  • O IDH mede a qualidade de vida de um país.
  • Leva-se em conta a expectativa de vida;
  • A renda per capita;
  • Taxa de alfabetização; Índice de matrículas no ensino fundamental, médio e superior
  • O Brasil ainda mantêm indicadores típicos do subdesenvolvimento:
  • Desigualdade extrema na distribuição de renda, pobreza, insuficiência alimentar, grande incidência de doenças, altas taxas de mortalidade infantil entre os pobres, precariedade na coleta de esgoto, etc.

 O Coeficiente de GINI

  • Criado pelo demógrafo italiano Corrado Gini (1884-1965), em 1912.
  • O coeficiente de Gini (ou índice de Gini) é um cálculo usado para medir a desigualdade social,  desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini.
  • O Coeficiente de Gini indica o grau de concentração de renda de um país.
  • Esse índice varia de 0,0 a 1,0.
  • Quanto mais próximo de 1,0, maior a concentração de renda.
  • Apresentam dados entre o número e o número 1, onde zero corresponde a uma completa igualdade na renda (onde todos detêm a mesma renda per capta)
  • um que corresponde a uma completa desigualdade entre as rendas (onde um indivíduo, ou uma pequena parcela de uma população, detêm toda a renda e os demais nada têm).

 Valores do Gini de alguns países:

  • Brasil: 0,544 (2008)
  • Paraguai: 0,568 (2008)
  • Argentina: 0,49 (2007)
  • China: 0,47 (2007)
  • Alemanha: 0,27 (2006)
  • México: 0,479 (2006)
  • Noruega: 0,25 (2008)
  • Portugal: 0,385 (2008)
  • Estados Unidos: 0,45 (2007)
  • França: 0,327 (2008)

Indicadores do grau de pobreza ou de desenvolvimento de uma sociedade.

Predomínio do setor primário sobre o secundário.

  • Nas economias menores desenvolvidas, o setor primário.
  • agricultura, pecuária, pesca, extrativismo vegetal, mineral.
  • Apresenta maior importância  do que o setor secundário, representado pela indústria.

Baixa produtividade na agricultura

Entre as características da agricultura nos países pobres estão:

  • A concentração da propriedade da terra em um pequeno número de grandes      latifúndios.
  • A  baixa produtividade.
  • O  uso insuficiente de tecnologia no sistema produtivo.
  • Os baixos salários.
  • A exploração predatória dos recursos naturais.

Os números da pobreza

Os principais indicadores vitais da pobreza ou do subdesenvolvimento são:

  • Insuficiência alimentar;
  • Grande incidência de doenças;
  • Altas taxas de natalidade;
  • Crescimento demográfico

Consumo insuficiente de calorias

  • Limite mínimo – 1 000 calorias diárias.
  • Subalimentação – 2 240 calorias diárias.
  • Bangladesh, Etiópia e Haiti – apresentam numero inferior ao mínimo – Subalimentação crônica ou fome.
  • Ocorre também em países emergentes como Índia e Brasil.

Vulnerabilidade às doenças

  • Más condições sanitárias promovem;
  • Sarampo, tuberculose, parasitoses intestinais, malária, dengue, etc.
  • Uma nova doença contagiosa:
  • Aids (Síndrome de Imuno-Deficiência Adquirida)
  • A Aids atinge a região mais pobre do planeta.
  • É na África que a doença provoca maiores estragos – Mais de 22 milhões
  • No mundo – 33 milhões
  • No Brasil – 593 mil e matou 183 mil pessoas

Vídeos sobre Aids

http://www.youtube.com/watch?v=52dY7HTPgeI

http://www.youtube.com/watch?v=sMCcxoRj3k8

http://www.youtube.com/watch?v=Uy0qQvFxDWs

 Altas taxas de natalidade.

  • Os países pobres e emergentes apresentam maiores índices.
  • Em alguns lugares são anulados pela elevada mortalidade.
  • Para algumas famílias quanto maios o números de filhos – maior a renda.
  • Falta de esclarecimento sobre os métodos contraceptivos.

 O Estado como indutor do desenvolvimento.

  • A  tomada de consciência em relação à miséria e ao atraso tem levado, em      diversos países,
  • A formação de planos para superar essa situação.
  • Tais planos tomam forma em projetos de desenvolvimento.
  • Eles devem assumir uma dimensão política,
  • Convertendo-se  em programas concretos,
  • Capazes de serem levados à prática.
  • Deve promover a superação do atraso com distribuição mais democrática da renda e da terra.
  • Respeito à preservação do meio ambiente.

 O desenvolvimento econômico

  • Alguns autores consideram o desenvolvimento como simples sinônimo de crescimento econômico.
  • Para eles o desenvolvimento seria um processo de expansão quantitativa do produto e da renda.
  • Se considerarmos a pobreza e o baixo desenvolvimento como o conjunto de características,
  • O  desenvolvimento é um processo muito mais amplo.

 O desenvolvimento consiste na:

  • Transformação qualitativa da sociedade,
  • Na mudança de suas características,
  • Fala-se muito em desenvolvimento sustentável.
  • Que significa crescimento acompanhado de:
  • Combate à pobreza,
  • Melhor distribuição da renda,
  • Da propriedade da terra,
  • Com respeito ao equilíbrio ecológico.

 Para que haja desenvolvimento é necessário que se verifiquem alterações profundas:

  • Na distribuição de renda,
  • Na condições de moradia,
  • Higiene,
  • Saúde da população,
  • Propriedade da terra,
  • Condições de emprego,
  • No  acesso à educação, etc.
  • Para  que haja desenvolvimento sustentável é necessário que esse crescimento com   democratização e humanização da vida seja realizado em condições de respeito ao meio ambiente.
  • Alguns  países considerados subdesenvolvidos nos anos 1960 e 1970 podem   experimentar crescimento econômico, sem que esteja passando por um  verdadeiro processo de desenvolvimento – embora o desenvolvimento só seja      possível com crescimento econômico.
  • Enfim, é necessário que exista uma participação de todos na riqueza produzida, e não apenas um crescimento dessa riqueza.

 

REFERÊNCIA

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia: ensino médio, volume único. São Paulo: Ática, 2011.

Declaração Universal dos Direitos Humanos

 

Leia a seguir os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos e procure compará-los com a realidade da cidadania, tal como ela vem sendo praticada no mundo em geral e no Brasil, em particular:

• Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

• Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

• Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa.

• Todo ser humano tem direito à alimentação, vestuário, habitação e cuidados médicos.

• Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

• Todo ser humano tem direito ao trabalho e à livre escolha de emprego.

• Toda pessoa tem, direito à segurança social.

• Toda pessoa tem direito a tomar parte no governo de seu país.

• Toda pessoa tem direito a uma ordem social em que seus direitos e liberdades possam ser plenamente realizados.

• Todo indivíduo tem o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei.

• Todo ser humano tem direito à instrução.

 

Os Direitos das Crianças

 

Embora a palavra cidadania possa ter vários sentidos, atualmente sua essência é única: significa o direito de viver com dignidade e em liberdade.

Refletindo sobre isso, leia agora os Direitos das Crianças – uma declaração, com dez itens – aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1950.

 

1. Direito à igualdade, sem distinção de raça, religião ou nacionalidade.

2. Direito a proteção especial para seu desenvolvimento físico, mental e social.

3. Direito a um nome e a uma nacionalidade.

4. Direito à alimentação, moradia e assistência médica adequadas para a criança e a mãe.

5. Direito à educação e a cuidados especiais para a criança física e mentalmente deficiente.

6. Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade.

7. Direito à educação gratuita e ao lazer.

8. Direito a ser socorrida em primeiro lugar, em caso de catástrofe.

9. Direito de ser protegida contra o abandono e a exploração no trabalho.

10. Direito a crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos

 

(Fonte: Ari Herculano Souza. Os Direitos Humanos. São Paulo, Editora do Brasil, 1989. p. 23

A SOCIOLOGIA NO BRASIL

Publicado: agosto 26, 2013 em Sociologia

A década de 1930 se norteou por algumas preocupações gerais entre a intelectualidade:

›  Interesse pela descoberta do Brasil verdadeiro, em oposição ao Brasil colonizado e estudado sob a visão etnocêntrica da Europa

›  O desenvolvimento do nacionalismo, como sentimento capaz de unir as diversas camadas sociais.

›  A valorização do cientificismo- como principal forma de conhecer e explicar a nação- e um grande anseio por modernizar a estrutura social brasileira.

›  A sociologia como conhecimento sistemático e metódico da sociedade só aparece na década de 30.

›  Fundação da Escola Livre de Sociologia e Política, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em São Paulo, e da Ação Integralista Brasileira (1932)

›  Intelectuais da chamada geração de 30, foram Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Fernando de Azevedo

›  Na década de 1930, grandes mudanças ocorreram no Brasil: a crise da política defendida pelas oligarquias agrárias, o crescimento da burguesia, o incremento da industrialização e a centralização do poder com o golpe de 1937, que instaurou o Estado Novo no país.

›  Surgiram pensadores de influência marxista ou liberal.

›  Foram criados inúmeros ministérios e institutos-antigos bacharéis de direito, engenharia e medicina, com conhecimentos gerais de ciências sociais e humanas foram encaminhados para o funcionalismo público.

›  Surgiram os pensadores de direita, ideólogos do integralismo, tais como Plínio Salgado, que via com desconfiança não só o movimento modernizador da sociedade como também o liberalismo e o marxismo.

›  Suas ideias conservadoras exaltavam a ordem, a disciplina e a tradição, bem como o autoritarismo do Estado.

›  A década de 1940 – A Segunda Guerra Mundial foi o divisor de águas na história da civilização ocidental, responsável pela emergência e pela consagração dos EUA e da então URSS como potências mundiais.

›  Acordos definiram as regiões do planeta que ficariam sob o controle político e ideológico dos EUA ou da URSS, “determinando” a divisão do  mundo em dois blocos político-econômicos rivais e inconciliáveis.

›  Na década de 1940, o país adquiria consciência de sua complexidade e de sua particularidade.

›  Tudo favorecia a superação de uma cultura que buscara sempre se identificar com as metrópoles econômicas e culturais europeias.

›  As artes, a ciência se debruçava sobre o Brasil, valorizando seus aspectos mais específicos e minoritários.

›  O pensamento sociológico, como forma de pensar a nação brasileira e desenvolver uma consciência crítica sobre nossa realidade, adquiriu nessa década uma importância cada vez maior. As análises sobre as desigualdades sociais, etnias, políticas indigenistas, regionalismos, tradições, transição e mudança extrapolaram os limites da disciplina e foram incorporadas pela geografia, pela história e até pela filosofia.

›  A década de 1950 é marcada por dois importantes pensadores, responsáveis pela formação de duas grandes correntes do pensamento social brasileiro:

›  Florestan Fernandes

›  Celso Furtado

›  Florestan Fernandes, unia a teoria à prática, sendo o que ele próprio chamava de “sociólogo militante”, foi influenciado por Marx.

›  Segundo Florestan, a sociedade podia ser estudada pelos padrões ou estrutura, isto é, os fundamentos da organização social pelos dilemas (conjunturas históricas), que eram contradições geradas pela dinâmica interna da estrutura.

›  Florestan Fernandes é o principal ele entre uma geração de importantes catedráticos e uma nova geração que surgia nos anos 50.

›  Suas grandes preocupações, no campo da sociologia, além da reflexão teórica, foram os estudos das relações sociais e da estrutura de classes da sociedade brasileira, o capitalismo dependente e o papel do intelectual.

 

Referência

COSTA, Cristina. Sociologia-Introdução à Ciência da Sociedade. São Paulo: Editora Moderna, 2010.

O distraído

Publicado: maio 21, 2013 em Filosofia

Tales de Mileto                O preconceito e a hostilidade em relação à Filosofia não é algo novo, recente,  mas, ao contrario, remontam às origens da Filosofia na Grécia Antiga.

                Talvez o registro mais antigo desse preconceito seja aquele que foi vítima, Tales de Mileto, que viveu no século VII a.C. e é considerado o primeiro filósofo da história. A respeito dele contava-se a seguinte anedota, bastante difundida na Grécia Antiga e recuperada por Platão em sua obra Teeteto: Tales era tão interessado no estudo dos astros que costumava caminhar olhando para o céu. Certo dia, absorto em seus pensamentos e raciocínios, acabou tropeçando e caindo em um poço, sendo motivo de riso e caçoada para uma escrava que ali se encontrava. Espalhou-se, então, o boato de que Tales se preocupa mais com as coisas do céu, esquecendo-se das que estavam debaixo de seus pés. “Essa pilhéria”, adverte Platão, “se aplica a todos os que vivem para a Filosofia”.

                Essa imagem de um homem distraído e trapalhão, porém, não parece condizer com a verdade sobre Tales, que, ao que tudo indica, era uma pessoa bem esperta, viva e inteligente. É o que se conclui, por exemplo, de outra anedota contada sobre ele, registrada por Aristóteles em sua obra A política e atribuída a Tales por causa de sua sabedoria:

                “como o censuravam pela pobreza e zombavam de sua inútil filosofia, o conhecimento dos astros permitiu-lhe prever que haveria abundancia de olivas. Tendo juntado todo o dinheiro que podia, ele alugou, antes do fim do inverno, todas as prensas de óleo de Mileto e de Quios. Conseguiu-as a bom preço, porque ninguém oferecera melhor e ele dera algum adiantamento. Feita a colheita, muitas pessoas apareceram ao mesmo tempo para conseguir as prensas e ele as alugou pelo preço que quis. Tendo ganhado muito dinheiro, mostrou a seus amigos que para os filósofos era muito fácil enriquecer, mas que eles não se importavam com isso. Foi assim que mostrou sua sabedoria”.

                Na verdade, Tales deve ter gozado de grande prestígio em sua época. Tanto que passou para a posteridade como um dos sete sábios da Grécia: na política, empenhou-se em organizar as cidades gregas da Jônia para enfrentar a ameaça dos persas; como engenheiro, quis desviar o curso de alguns rios para fins da navegação e irrigação; como pesquisador, investigou as causa das inundações do rio Nilo, rompendo com as explicações míticas que se davam para elas; como astrônomo, previu um eclipse solar e descobriu a constelação denominada Ursa Menor; como matemático e geômetra, teria descoberto um método para medir a altura de uma pirâmide do Egito, do qual teria derivado o famoso “Teorema de Tales”.

                Além disso, não podemos esquecer que Tales foi, segundo Aristóteles, o primeiro a dar uma resposta racional, isto é, sem recorrer aos mitos, para a pergunta que mais incomodava os primeiros filósofos (os chamados pré-socráticos ou filósofos físicos): Qual era o elemento primordial que dava origem a todas as coisas? Para Tales esse elemento era a água, por ele estar presente nos alimentos necessários à vida, pelo fato de as coisas vivas serem úmidas, enquanto as mortas ressecam e porque a Terra repousa sobre as águas. Daí sua conclusão de que ela deve ter sido o elemento primordial.

                Vemos, portanto, que Tales, ao contrário do que sugere a primeira anedota, não tinha nada de lunático, distraído e desligado dos problemas concretos. Pôs toda a sua inteligência, curiosidade e criatividade a serviço da busca de soluções para eles, sobretudo aqueles mais importantes e urgentes em sua época. Eis por que tal anedota revela, de fato, um preconceito, isto é, um conceito precipitado e desprovido de fundamentação.

Os primeiros sociólogos

Publicado: abril 24, 2013 em Sociologia

Os primeiros sociólogos

os primeiros sociólogos

Nascido dez anos depois da Revolução Francesa, Augusto Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, em seu Curso de Filosofia Positiva,

Comte afirmava que a sociedade deveria ser considerada corno um organismo vivo, cujas partes desempenham funções específicas que contribuem para manter o equilíbrio do todo. Ele atribuía particular  importância à noção de consenso, ou seja, às ideias e crenças comuns, partilhadas por todas as pessoas de determinada sociedade, que seriam as responsáveis por manter a ordem nessa sociedade.

Com seu “método positivo” de conhecimento, Comte procurou formular as leis gerais que regem a sociedade. Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a Sociologia passou a ser considerada urna ciência.

Durkheim formulou os primeiros conceitos da nova ciência e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, devendo por isso ser estudados por meio de métodos diferentes dos empregados pelas outras ciências.

Durkheim e os fatos sociais

Durkheim pretendia fazer da Sociologia urna ciência tão racional e objetiva quanto a Física ou a Biologia. Mas, corno fazer isso, se a Sociologia lida com seres humanos que mudam a todo momento, que têm sentimentos, emoções, ideias e vontade própria, ao contrário dos fenômenos físicos ou biológicos?

Durkheim tentou resolver esse complexo problema postulando corno princípio fundamental da Sociologia que os fatos sociais devem ser considerados corno coisas, assim corno urna reação química é urna “coisa” para um químico, isto é, algo objetivo, capaz de ser estudado, analisado, compreendido e explicado racionalmente.

Os fatos sociais seriam, assim, coisas externas e objetivas, que não dependem da consciência individual das pessoas para existir. Os fatos sociais, dizia Durkheim, são “maneiras coletivas de agir ou de pensar” que podem ser reconhecidas pelo fato de exercerem urna “influência coercitiva sobre as consciências particulares”. Ou seja, os fatos sociais têm existência própria e são capazes de obrigar (“influência coercitiva”) as pessoas a se comportar desta ou daquela maneira.

Evidentemente, nem sempre essa coerção pode ser percebida corno tal. Em muitos casos, simples¬ mente nos comportamos corno achamos que deve¬ mos nos comportar. Entretanto, por trás dessa aparente liberdade irrestrita existem hábitos, costumes coletivos, ou mesmo regras, que nós aceitamos corno válidas e nos induzem a assumir certas atitudes. Vejamos corno isso ocorre.

O poder coercitivo dos fatos sociais

Um exemplo simples pode nos ajudar a entender esse conceito. Se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação desconfortável: os colegas ririam dele, o professor lhe daria urna bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para casa para pôr urna roupa adequada.

Existe um modo de se vestir que é comum, que todos seguem (nesse caso, os alunos da escola). Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste ou não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá urna punição (que pode ir, conforme o caso, da ridicularização e do isolamento até urna sanção penal). O modo de se vestir é um fato social.

São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e urna infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo.

De acordo com Durkheim, os fatos sociais são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora eles sejam exteriores às pessoas, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo. Resumindo, podemos dizer que, segundo Durkheim, os fatos sociais têm as seguintes características:

• generalidade – o fato social é comum a todos os membros de um grupo ou à sua grande maioria;

• exterioridade – o fato social é externo ao indivíduo, existe independentemente de sua vontade;

• coercitividade – os indivíduos se sentem pressionados a seguir o comportamento esta¬belecido.

A contribuição de Max Weber

Enquanto Durkheim trabalhava na França, na Alemanha destacou-se Max Weber (1864-1920), que defendia outro tipo de abordagem no estudo da sociedade. Para Weber, os métodos de investigação da Sociologia não deveriam seguir o caminho aberto pelas Ciências Naturais, corno queria Durkheim. Isso porque os fatos humanos têm também urna dimensão subjetiva – formada pela consciência e pelas intenções das pessoas -, o que não ocorre com os fenômenos da na¬tureza. Essa dimensão subjetiva, dizia ele, pode e deve ser compreendida e interpretada pela Sociologia.

Na concepção de Weber, a Sociologia é urna disciplina interpretativa e não apenas descritiva. Para ele, não basta descrever as atitudes e relações estabelecidas entre os indivíduos em so¬ciedade, mas é necessário também considerar e interpretar o sentido que as pessoas atribuem às suas próprias atitudes.

Esse método interpretativo só pode ser aplicado ao comportamento humano e é ele que marca, segundo Weber, a diferença entre as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza (veja o texto: Weber e o Espírito do Capitalismo, abaixo).

Na seção a seguir abordaremos um dos con¬ceitos básicos da Sociologia Compreensiva de Max Weber: o de ação social. Quanto à contribuição de Karl Marx, aspectos dela serão estudados mais adiante.

O conceito de ação social

Weber definia a Sociologia corno “urna ciência voltada para a compreensão interpretativa da ação social e, por essa via, para sua explicação causal no seu transcurso e nos seus efeitos”. Desse modo, o pensador alemão introduziu um novo ponto de partida para a Sociologia, um novo conceito sociológico, diverso da noção de fato social tal corno foi proposta por Durkheim. Esse ponto de partida é a ação social dos indivíduos.

Por ação social Weber entendia urna moda¬lidade de conduta dotada de sentido e voltada para a ação de outras pessoas. Nem toda espécie de ação, dizia ele, constitui urna ação social. Por exemplo, não há contato social no fato de duas pessoas se cruzarem em urna rua. Nesse tipo de encontro casual não há propriamente ação social. Haveria apenas no caso de essas pessoas se cum¬primentarem, ou de conversarem, ou de entrarem em conflito, ou ainda no caso de ambas praticarem qualquer ato com significado próprio voltado para urna terceira pessoa. São ações sociais, por exemplo, um jogo de futebol, o contato amoroso entre duas pessoas, urna greve de trabalhadores, urna aula, um ato religioso, etc.

Um desdobramento do conceito de ação social é o de relação social. Ele diz respeito a ações de diversas pessoas, ou agentes, dotadas de sentidos mutuamente relacionados. Nesse caso, a conduta dos agentes se orienta para sentidos compartilhados por todos. Por exemplo, as ações praticadas por pessoas no interior de urna família constituem urna relação social, pois há um significado coletivo compartilhado por todos os membros da família. Esse significado orienta a ação de cada pessoa dessa família levando-a a cultivar certos valores aceitos por todos, corno o respeito pelos pais, o afeto comum, o usufruto de bens corno a casa onde moram, de seus uten¬sílios, etc.

A explicação sociológica em Weber – afirmam Maria Ligia Barbosa e Tania Quintaneiro em Um to¬ que de clássicos – busca compreender e interpretar o sentido, o desenvolvimento e os efeitos da ação social. Compreender urna ação social é captar e interpretar sua conexão de sentido, que será mais ou menos evidente para o sociólogo.

WEBER E O “ESPÍRITO DO CAPITALISMO”

Max Weber aplicou sua Sociologia Compreensiva em diversos textos históricos.

Um dos mais célebres é A ética protestante e o espírito do capitalismo. Nesse livro ele chamou a atenção para a relação entre uma ética que valorizava o trabalho árduo e o espírito de poupança, a ética calvinista, ou puritana – um ramo da religião protestante -, e o espírito racional da burguesia dos séculos XVI e XVII. Em seu estudo, Weber procurou destacar que as diferentes esferas da vida social têm vida própria (autônoma), mas se inter-influenciam de forma constante.

No estudo sobre a “ética protestante e o espírito do capitalismo”, Weber procurava demonstrar a existência de uma íntima afinidade entre a ideia protestante de “vocação” e a contenção do impulso irracional para o lucro através da atividade metódica e racional, em busca do êxito econômico representado pela empresa. Por essa via, apresentava-se a ideia de que um determinado tipo de orientação da conduta na esfera religiosa – a ética protestante – poderia ser encarado como uma causa do desenvolvimento da conduta racional em moldes capitalistas na esfera econômica. [. .. ]

Levantar a ideia de que a ética protestante possa ser encarada como um componente causal significativo para o desenvolvimento do capitalismo moderno (en¬ tendido como tipo de orientação da ação econômica) implica sustentar que, na hipótese da sua ausência, o capitalismo não existiria na forma como o conhece¬ mos. A contrapartida lógica disso é a hipótese de que, sempre que a ética religiosa de sociedades historicamente dadas tenha características significativamente diversas da protestante, isso deveria representar um obstáculo ao desenvolvimento de uma orientação da conduta econômica análoga à capitalista racional. No caso europeu verificava-se uma afinidade interna entre a orientação da conduta nas esferas religiosa e econômica, na medida em que ambas ensejavam um domínio racional sobre os impulsos irracionais e sobre o mundo, mas também pode haver uma tensão entre os sentidos das ações nessas duas esferas da existência. [. .. ]

Weber estava preocupado com refutar a ideia de uma determinação das diversas esferas da vida social pela econômica []. Ao fazer isso, desenvolveu uma concepção que desempenha papel de extrema importância no seu esquema analítico: a de que, no processo que percorrem, as diversas esferas da existência – a eco-nômica, a religiosa, a jurídica, a artística e assim por diante – são autônomas entre si, no sentido de que se articulam em cada momento e ao longo do tempo con¬ forme à sua lógica interna específica [..].

Assim, não é possível encontrar a explicação do desenvolvimento de uma delas em termos do desenvolvi¬ mento de qualquer outra. O máximo que se pode fazer é buscar as afinidades e as tensões no modo como a orientação da conduta de vida (ou seja, da ação cotidiana de agentes individuais) se dá em esferas diferentes. Por essa via pode-se encontrar, ou não, uma congruência entre os sentidos que os homens imprimem à sua ação em diferentes esferas da sua existência e expor essas desco¬bertas a um tratamento causal.

Adaptado de: COHN, Gabriel Weber, 7. ed. São Paulo:Ática, 1999, p. 23-5, Coleção Grandes Cientistas Sociais

A objetividade na análise sociológica

Uma importante característica da observação científica é a objetividade. Diz-se que uma pessoa é objetiva quando ela é capaz de considerar um fenô¬meno sem ideias preconcebidas, sem que se deixe levar por razões pessoais e subjetivas. A objetivi¬dade consiste, portanto, em uma atitude de neutralidade do cientista em relação ao fenômeno ou objeto estudado. Também pode ser definida como a possibilidade do cientista obter resultados sem que seus sentimentos pessoais estejam envolvidos.

O problema, nesse caso, consiste em saber se o sociólogo pode manter realmente uma posição de neutralidade em relação aos fenômenos sociais que observa. De fato, a objetividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências Exatas. Em Matemática, a soma de dois mais dois é igual a quatro, seja ela feita por um católico, um muçulmano ou um ateu. Em contra¬ partida, no estudo de si mesmos e da sociedade, os seres humanos podem se deixar influenciar por seus sentimentos, por ideias preconcebidas, pelas crenças que adotam, pelos valores que aceitam e pelos interesses do grupo social a que pertencem.

Além disso, os cientistas sociais têm também maior dificuldade de submeter suas teses à experimentação. De fato, é muito difícil isolar grandes grupos de pessoas e induzi-los a mudanças para verificar seus resultados, como se faz, por exemplo, em Biologia ou em experiências de laboratório.

Durkheim e Marx

As dificuldades enfrentadas pela Sociologia em relação a essa exigência de objetividade nunca foram plenamente resolvidas. Para Durkheim, a objetividade científica só pode ser atingida em Sociologia caso o sociólogo não se envolva com os fatos estudados. Para isso, é preciso considerá-los como coisas externas. Essa é a condição para que o sujeito do conhecimento (o sociólogo) se separe do objeto do conhecimento (os fatos sociais).

Para Karl Marx, entretanto, essa separação é impossível, pois o cientista social está envolvido pelos fatos sociais desde que nasce. Mais ainda, o sociólogo, corno todo ser humano, é produto das relações sociais que o ligam a determinados grupos da sociedade. Na concepção marxista, a sociedade moderna está dividida em classes, como a burguesia e o proletariado, que lutam incessantemente entre si. Assim, a luta de classes, as greves e as revoluções são resultado da divisão da sociedade em grupos antagônicos. Marx chegou mesmo a afirmar que a história da humanidade é a história da luta de classes.

Durkheim tinha urna opinião diametralmente oposta: ele considerava que essas manifestações eram sintomas de uma espécie de “doença” da sociedade, que chamou de “ano mia”. Em seu entender, a ano mia seria caracterizada pela perda de regras ou de normas corretas de conduta social. Na base desse fenômeno haveria, portan¬to, um desregramento das relações entre o indivíduo e a sociedade. Uma das manifestações da ano mia seria o “antagonismo entre o trabalho e o capital”, ou seja, a luta de classes na sociedade industrial.

Assim, enquanto Durkheim era um defensor da ordem social, das ideias de Marx surgiu uma Sociologia crítica, mais interessada nas mudanças e rupturas no interior da sociedade do que na preservação da ordem estabelecida. Para Marx e seus seguidores, o cientista social não deveria per¬manecer neutro diante dos conflitos sociais, mas assumir a defesa dos interesses do proletariado, classe que para eles seria a portadora das trans¬ formações sociais necessárias para o advento do socialismo.

Objetividade em Max Weber

Max Weber discordava tanto de Durkheim quanto de Marx. Do primeiro, rejeitava a ideia de fato social considerado como coisa externa às pessoas. Do segundo, opunha-se à ideia de compromisso com uma classe social.

Para Weber, é necessário separar o conhecimen¬ to científico, resultado de uma investigação criteriosa, dos julgamentos morais, ou juízos de valor. Segundo ele, a ciência social não deve opinar se o fenômeno estudado é bom ou mau. Cabe ao cientista assumir uma posição de neutralidade: enquanto fizer ciência, o sociólogo deve deixar de lado suas preferências políticas e escolhas ideológicas e consi¬derar as ações e processos sociais com base em uma posição de absoluta isenção e imparcialidade.

Apesar dessas dificuldades e discordâncias, a Sociologia é perfeitamente capaz de analisar os fatos sociais com objetividade. É essa possibilidade que faz dela uma ciência.

O primeiro passo para entender a Sociologia – assim como qualquer outra ciência – é o conhecimento de seus conceitos básicos. Eles definem os fenôme¬nos que fazem parte de seu campo de estudo e diferenciam a Sociologia das outras Ciências Sociais, pois cada urna delas tem seu próprio corpo de conceitos. Como ciência, a Sociologia tem um duplo valor: pode aumentar o conhecimento que o ser humano tem de si mesmo e da sua sociedade, e pode contribuir para a solução de problemas que os atingem.

REFERÊNCIAS

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia: ensino médio, volume único. São Paulo: Ática, 2010.

O Mito de Er

Publicado: março 5, 2013 em Filosofia

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«- A verdade que o que te vou narrar não é um conto de Alcínoo, mas de um homem valente, Er o Arménio, Panfílio de nascimento. Tendo ele morrido em combate, andavam a recolher, ao fim de dez dias, os mortos já putrefactos, quando o retiraram em bom estado de saúde. Levaram-no para casa para lhe dar sepultura, e, quando, ao décimo segundo dia, estava jazente sobre a pira, tornou à vida e narrou o que vira no além. Contava ele que, depois que saíra do corpo, a sua alma fizera caminho com muitas, e havia chegado a um lugar divino, no qual havia, na terra, duas aberturas contíguas uma à outra, e no céu, lá em cima, outras em frente a estas. No espaço entre elas, estavam sentados juízes que, depois de pronunciarem a sua sentença, mandavam os justos avançar para o caminho à direita, que subia para o céu, depois de lhes terem atado à frente a nota do seu julgamento; ao passo que, os injustos, prescreviam que tomassem à esquerda, e para baixo, levando também atrás a nota de tudo quanto haviam feito. Quando se aproximou, disseram-lhe que ele devia ser o mensageiro, junto dos homens, das coisas do além, e ordenaram-lhe que ouvisse e observasse tudo o que havia naquele lugar. Ora ele viu que ali, por cada uma das aberturas do céu e da terra, saíam as almas, depois de terem sido submetidas ao julgamento, ao passo que pelas restantes, por uma subiam as almas que vinham da terra, cheias de lixo e de pó, e por outra desciam as almas do céu, em estado de pureza. E as almas, à medida que chegavam, pareciam vir de uma longa travessia e regozijavam-se por irem para o prado acampar, como se fosse uma panegíria[1]; e as que se conheciam, cumprimentavam-se mutuamente, e as que vinham da terra faziam perguntas às outras, sobre o que se passava no além, e as que vinham do céu, sobre o que sucedia na terra. Umas, a gemer e a chorar, recordavam quantos e quais sofrimentos haviam suportado e visto na sua viagem por baixo da terra, viagem essa que durava mil anos, ao passo que outras, as que vinham do céu, contavam as suas deliciosas experiências e visões de uma beleza indescritível. Referir todos os pormenores seria, ó Gláucon, tarefa para muito tempo. Mas o essencial dizia ele que era o que segue. Fossem quais fossem as injustiças cometidas e as pessoas prejudicadas, pagavam a pena de tudo isso sucessivamente, dez vezes por cada uma, quer dizer, uma vez em cada cem anos, sendo esta a duração da vida humana – a fim de pagarem, decupilando-a, a pena do crime; por exemplo, quem fosse culpado da morte de muita gente, por ter traído Estados ou exércitos e os ter lançado na escravatura, ou por ser responsável por qualquer outro malefício, por cada um desses crimes suportava padecimentos a duplicar; e, inversamente, se tivesse praticado boas acções e tivesse sido justo e piedoso, recebia recompensas na mesma proporção. Sobre os que morreram logo a seguir ao nascimento e os que viveram pouco tempo, dava outras informações que não vale a pena lembrar. Em relação à impiedade ou piedade para com os deuses e para com os pais, e crimes de homicídio, dizia que os salários eram ainda maiores.

Contava ele, com efeito, que estivera junto de alguém a quem perguntaram onde estava Ardieu o Grande. Este Ardieu tinha sido tirano numa cidade da Panfília, havia já então mil anos; tinha assassinado o pai idoso e o irmão mais velho, e perpetrado muitas outras impiedades, segundo se dizia. E o interpelado respondera: “Não vem, nem poderá vir para aqui. Na verdade, um dos espectáculos terríveis que vimos foi o seguinte: Depois de nos termos aproximado da abertura, preparados para subir, e quando já tínhamos expiado todos os sofrimentos, avistámos de repente Ardieu e outros, que eram tiranos, na sua quase totalidade; mas também havia alguns que eram particulares que tinham cometido grandes crimes – que, quando julgavam que já iam subir, a abertura não os admitia, mas soltava um mugido cada vez que algum desses, assim incuráveis na sua maldade ou que não tinham expiado suficientemente a sua pena, tentava a ascensão. Estavam lá homens selvagens, que pareciam de fogo, e que, ao ouvirem o estrondo, agarravam alguns pelo meio e levavam-nos, mas, a Ardieu e outros, algemaram-lhes as mãos, pés e cabeça, derrubaram-nos e esfolaram-nos, arrastaram-nos pelo caminho fora, cardando-os em espinhos, e declaravam a todos, à medida que vinham, por que os tratavam assim, e que os levavam para os precipitar no Tártaro”. Então tinham tido terrores múltiplos e variados, mas o maior de todos era o de cada um deles ouvir o mugido, quando ia a subir, e foi com o maior gosto que cada um fez a ascensão ante o silêncio daquele. Eram mais ou menos estas as penas e castigos, e bem assim as vantagens que lhes correspondiam. Depois de cada um deles ter passado sete dias no prado, tinham de se erguer dali, e partir ao oitavo dia, para chegar, ao fim de mais quatro dias, a um lugar de onde se avistava, estendendo-se desde o alto através de todo o céu e terra, uma luz, direita com uma coluna, muito semelhante ao arco-íris, mas mais brilhante e mais pura. Cegaram lá, depois de terem feito um dia de caminho, e aí mesmo, viram, no meio da luz, pendentes do céu, as extremidades das suas cadeias (efectivamente essa luz é uma cadeia do céu, que tal como as cordagens das trirremes, segura o firmamento na sua revolução); dessas extremidades pendia o fuso da Necessidade, por cuja acção giravam as esferas. A respectiva haste e gancho eram de aço; o contrapeso, de uma mistura desse produto e de outros. Quanto à natureza do contrapeso, era como segue. A sua configuração era semelhante à dos daqui, mas, quanto à sua constituição, contava ele que devíamos imaginá-la da seguinte maneira: era como se, num grande contrapeso oco e completamente esvaziado, estivesse outro semelhante, maior, que coubesse exactamente dentro dele, como as caixas que se metem umas nas outras; do mesmo modo, um terceiro, um quarto, e mais quatro. Com efeito, eram oito ao todo, os contrapesos, encaixados uns nos outros, que, na parte superior, tinham o rebordo visível com outros tantos círculos, formando um plano contínuo de um só fuso em volta da haste. Esta atravessava pelo meio, de lés-a-lés, o oitavo. Ora o primeiro contrapeso, o exterior, era o que tinha o círculo de rebordo mais largo; o segundo lugar cabia ao sexto, o terceiro ao quarto, o quarto ao oitavo, o quinto ao sétimo, o sexto ao quinto, o sétimo ao terceiro, o oitavo ao segundo. O círculo do maior era cintilante, o do sétimo era o mais brilhante, o do oitavo tinha a cor do sétimo, que o iluminava, o do segundo e do quinto eram muito semelhantes entre si; um pouco mais amarelados do que aqueles, o terceiro era o que tinha a cor mais branca, o quarto era avermelhado, o sexto era o segundo em brancura[2].O fuso inteiro girava sobre si na mesma direcção, mas, na rotação desse todo, os sete círculos interiores andavam à volta suavemente, em direcção oposta ao resto. Dentre estes, o que andava com maior velocidade era o oitavo; seguiam-se, ao mesmo tempo, o sétimo, o sexto, e o quinto; o quarto parecia-lhes ficar em terceiro lugar nesta revolução em sentido retrógrado, o terceiro em quarto, e o segundo em quinto. O fuso girava nos joelhos da Necessidade. No cimo de cada um dos círculos, andava uma Sereia que com ele girava, e que emitia um único som, uma única nota musical; e de todas elas, que eram oito, resultava um acorde de uma única escala[3]. Mais três mulheres estavam sentadas em círculo, a distâncias iguais, cada uma em seu trono, que eram as filhas da Necessidade, as Parcas[4], vestidas de branco, com grinaldas na cabeça – Láquesis, Cloto e Átropos – as quais estavam ao som da melodia das Sereias, Láquesis, o passado, Cloto, o presente, e Átropos o futuro. Cloto, tocando com a mão direita no fuso, ajudava a fazer girar o círculo exterior, de tempos a tempos; Átropos, com a mão esquerda, procedia do mesmo modo com os círculos interiores; e Láquesis tocava sucessivamente nuns e noutros com cada uma das mãos. Ora eles, assim que chegaram, tiveram logo que ir para junto de Láquesis. Primeiro, um profeta dispô-los por ordem. Seguidamente, pegou em lotes e modelos de vidas que estavam no colo de Láquesis, subiu a um estrado elevado e disse:

“Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. Almas efémeras, vai começar outro período portador da morte para a raça humana. Não é um génio[5] que vos escolherá, mas vós que escolhereis o génio. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor, cada um terá em maior ou menor grau, conforme a honrar ou desonrar. A responsabilidade é de quem escolhe. O deus é isento de culpa”.

Ditas estas palavras, atirou com os lotes para todos e cada um apanhou o que caiu perto de si, excepto Er, a quem isso não foi permitido. Ao apanhá-lo, tornaram-se evidentes para cada um a ordem que lhe cabia para escolher. Seguidamente, dispôs no solo, diante deles, os modelos de vida, em número muito mais levado, do que os dos presentes. Havia-os de todas as espécies, vida de todos os animais, e bem assim de todos os seres humanos. Entre elas, havia tiranias, umas duradoiras, outras derrubadas a meio, e que acabavam na pobreza, na fuga, na mendicidade. Havia também vidas de homens ilustres, umas pela forma, beleza, força e vigor, outras pela raça e virtudes dos antepassados; depois havia também as vidas obscuras, e do mesmo modo sucedia com as mulheres. Mas não continham as disposições do carácter, por ser forçoso que este mude, conforme a vida que escolhem. Tudo o mais estava misturado entre si e com a riqueza e a indigência, a doença e a saúde, e bem assim o meio termo entre estes predicados. É ai que está, segundo parece, meu caro Gláucon, o grande perigo para o homem, e por esse motivo se deve ter o máximo cuidado em que cada um de nós ponha de parte os outros estudos para investigar e se aplicar a isto, a ver se é capaz de saber e descobrir quem lhe dará a possibilidade e a ciência de distinguir uma vida honesta da que é má e de escolher sempre em toda a parte tanto quanto possível a melhor […]

Ora, então, anunciou o mensageiro do além, o profeta falou deste modo: “Mesmo para quem vier em último lugar, se escolher com inteligência e viver honestamente, espera-o uma vida apetecível, e não uma desgraçada. Nem o primeiro deixe de escolher com prudência[6], nem o último com coragem”.

Ditas estas palavras, contava Er, aquele a quem coube a primeira sorte logo se precipitou para escolher a tirania maior, e, por insensatez e cobiça, arrebatou-a, sem ter examinado capazmente todas as consequências, antes lhe passou despercebido que o destino que lá estava fixado comportava comer os próprios filhos e outras desgraças. Mas, depois que a observou com vagar, batia no peito e lamentava a sua escolha, sem se ater às prescrições do profeta. Efectivamente, não era a si mesmo que se acusava da desgraça, mas à sorte e às divindades, e a tudo, mais do que a si mesmo. Ora, esse era um dos que vinham, do céu, e vivera, na incarnação anterior, num Estado bem governado; a sua participação na virtude devia-se ao hábito, não à filosofia. Pode-se dizer que não eram menos numerosos os que vindos do céu, se deixavam apanhar em tais situações, devido à sua falta de treino nos sofrimentos. Ao passo que os que vinham da terra, na sua maioria, como tinham sofrido pessoalmente e visto os outros sofrer, não faziam a sua escolha à pressa. Por tal motivo, e também devido à sorte da escolha, o que mais acontecia às almas era fazerem a permuta entre males e bens. […]

Era digno de se ver este espectáculo, contava ele, como cada uma das almas escolhia a sua vida. Era, realmente, merecedor de piedade, mas também ridículo e surpreendente. Com efeito, a maior parte fazia a sua opção de acordo com os hábitos da vida anterior. Dizia ele que vira a alma que outrora pertencera a Orfeu escolher uma vida de cisne, por ódio à raça das mulheres, porque, devido a ter sofrido a morte às mãos delas, não queria nascer de uma mulher; vira a de Tamiras[7] escolher uma vida de rouxinol; vira também um cisne preferir uma vida humana, e outros animais músicos procederem do mesmo modo. [..]

Assim que todas as almas escolheram as suas vidas avançaram, pela ordem da sorte que lhes coubera, para junto de Láquesis. Esta mandava a cada uma o génio que preferira para guardar a sua vida e fazer cumprir o que escolhera. O génio conduzia-a primeiro a Cloto, punha-a por baixo da mão dela e do turbilhão do fuso a girar, para ratificar o destino que, depois da tiragem à sorte, escolhera. Depois de tocar no fuso, conduzia-a a novamente à trama de Átropos, que tornava irreversível o que fora fiado. Desse lugar, sem se poder voltar para trás, dirigia-se para o trono da Necessidade, passando para o outro lado. Quando as restantes passaram, todas se encaminharam para a planura do Letes[8], através de um calor e uma sufocação terríveis.

De facto, ela era despida de árvores e de plantas. Quando já entardecia, acamparam junto do Rio Ameles[9], cuja água nenhum vaso pode conservar. Todas são forçadas a beber uma certa quantidade dessa água, mas aquelas a quem a reflexão não salvaguarda bebem mais do que a medida. Enquanto se bebe, esquece-se tudo. Depois que se foram deitar e deu a meia-noite, houve um trovão e um tremor de terra. De repente, as almas partiram dali, cada uma para seu lado, para o alto, a fim de nascerem, cintilando como estrelas. Er, porém, foi impedido de beber. Não sabia, contudo, por que caminho nem de que maneira alcançara o corpo, mas, erguendo os olhos de súbito, viu, de manhã cedo, que jazia na pira.

Foi assim, ó Gláucon, que a história se salvou e não pereceu.»

Platão, República, Livro X, 614b-621c.