Preconceito racial na escola

PRECONCEITO RACIAL NA ESCOLA

ANÁLISE NO AMBITO DAS RELAÇÕES ENTRE

PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO

 1. INTRODUÇÃO E ETERNALIZAÇÃO

 “Segundo Vygotsky o meio social influência na construção da identidade do indivíduo”.

Vygotsky afirma que a cultura molda o funcionamento psicológico do ser humano e que as aprendizagens produzem os desenvolvimentos psicológicos.

É a partir das experiências pessoais de interação com o mundo externo e objetivo que o individuo constrói seus processos psicológicos (subjetividade) e, (relação dialética)

Para que a internalização desta cultura aconteça, é preciso que haja uma estruturaração básica que já fora estabelecido ao longo da história da espécie. Contudo, esta base filogenética não determina o comportamento do indivíduo; este é o produto das relações com o meio social.

É o que “…possibilita o despertar de processos internos do indivíduo, liga o desenvolvimento da pessoa a sua relação com o ambiente sócio-cultural em que vive…”

(Oliveira, 1997, p.58) OLIVEIRA, Marta K. Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997.

Os relacionamentos afetivos, o ambiente de condições sociais e econômicas é muito específico para cada ser humano. É neste ponto que se diz ser elaborada a subjetividade; o “eu” de cada indivíduo. A forma com o cada um percebe o mundo é, portanto, muito relativa e pessoal.

“Essa relatividade é particular de cada sujeito, entretanto a percepção da criança que sofre racismo deixa de ser ignorante acerta do preconceito”.

2. FORMAÇÃO DE IDENTIDADE

É na formação da identidade que:

As crianças negras que interiorizam o discurso social de sua inferioridade acabam por pensar que para serem aceitas devem ser brancas.

Vygotsky afirma que a imitação é uma forma das crianças internalizarem o conhecimento externo

Os referenciais em geral são brancos (chapinha, alisamentos dos cabelos, etc. – Foto)

A auto-estima destes indivíduos geralmente encontra-se na constante desconfirmação de sua pessoa, construindo baixos padrões de avaliação sobre si mesmo. Afinal, a auto-estima está relacionada à interação social.

As situações vivenciadas pelos indivíduos negros são incorporadas em sua memória passando a influenciá-lo em suas relações sociais, e também na sua própria concepção (auto-imagem).

 “A lembrança é a sobrevivência do passado…”.

3. KABENGELE MUNANGA

(Antropólogo, Prof. Titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é vice Diretor do centro de estudos Africanos e do museu de arte contemporânea da USP).

“Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento”.

Munanga diz:

Parece simples definir quem é negro no Brasil. mas, num país que desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a questão de identidade do negro é um processo doloroso.

“Existe um racismo consciente ou inconsciente do negro que só se relaciona com pessoas brancas na tentativa de branquear a raça / família”.

4. A ESCOLA e socialização

(São Paulo está em 8º lugar na educação).

A escola, por sua vez, é tida como a segunda maior influência como fator social na formação da personalidade,

por exercer um papel menor que o lar. Como detentora do conhecimento e capacitada a uma mudança do comportamento, idéias de seus participantes, a escola deve, sobretudo, ser instituição responsável, com regras e padrões que necessariamente preguem a igualdade de seus cidadãos tendo como influências seus educadores.

Na escola, ocorre à construção do saber, que somando aos valores adquiridos nas relações familiares, acabam por constituir o repertório conceitual do indivíduo.

O rendimento escolar da criança negra acaba sendo condicionado por processos intraescolares, pois mesmo quando o nível sócio-econômico das famílias é equivalente, ainda assim, os negros, muitas vezes, apresentam uma trajetória escolar diferenciada: frustrante e excludente.

Esses processos intraescolar citado são decorrentes de alguns fatores, dentre eles, podemos citar o fato de que, apesar de o Brasil não ser um país de maioria branca, isso não faz com que a instituição escolar em seu planejamento pedagógico e curricular inclua as contribuições dos negros no desenvolvimento da nação e sua cultura.

Campos Jr., em sua investigação sobre “o que a menina negra aprende na escola sobre a tradição da sua etnia”, concluiu que a menina negra tende a passar pela escola de ensino fundamental sem conhecer heróis negros ou qualquer aspecto positivo da religião e da cultura de seus ancestrais, além de acumular experiências diretas de desvalorização pessoal.

(CAMPOS, JR, Pe., 1999. João. A criança negra na escola. São Paulo: Salesianas.)

Como no relato de um aluno de engenharia elétrica: “…investimento maciço na educação de base pode mudar o comportamento de muitas pessoas. Na escola, a criança vive um processo de socialização qualitativamente distinto, passando a internalizar novos conteúdos, padrões de comportamento e valores sociais. Será submetida a novos processos de internalização da realidade social, pela mediação de novos veículos sociais.

A escola é responsável por grande parte da transmissão de conhecimentos e valores adquiridos por uma cultura ao longo da história.

‘A escola, frente a esse fenômeno chamado racismo, especialmente em sua complexidade vivida no âmbito escolar, tem, portanto como obrigação, a busca pela igualdade de seus integrantes. Além de ser de extrema importância que todo profissional desta área seja capacitado a evitar e solucionar possíveis problemas referentes a qualquer tipo de discriminação nas extensões escolares. E para isso, se necessário, utilizar-se de variadas formas de veicular informações aos seus membros, de forma que toda história seja mostrada em suas múltiplas faces.

A partir da alteração de pequenos ramos deste processo, talvez um dia poder-se-á perceber um sutil, porém significativo incremento na qualidade de vida dos cidadãos pertencentes a grupos étnicos que se diferem dos brancos’.

Para Vygotsky o bom ensino é o que se antecipa ao desenvolvimento.

É necessário propor novas práticas curriculares que contemplem a diversidade cultural

Há esperança para a escola, professores e alunos.

– O aluno Felipe –

“A escola pra mim representa tudo mano, escola pra mim representa tudo. Imagine eu, amanhã ou depois sem escola? Que eu vou ser? Não vou ser nada, vou ser apenas mais um tiozinho por aí carregando lata de cimento pra ganhar dez conto, pra ter que ajudar minha família em casa na despesa. E é isso aí mano, a escola pra mim representa tudo ó”.

(Felipe, 15 anos, rapper, aluno de ensino médio em escola pública de São Paulo)

Munanga – “É bom lembrar que a escola publica já apresentou melhor qualidade, mas o negro e o pobre não estavam nela”.

5. A QUESTÃO DAS COTAS – MUNANGA

A questão ainda esta mal discutida, sendo formulada num tom passional, tanto pelos negros como pelos intelectuais. A questão não é a existência das cotas. O fundamental é aumentar o contingente negro no ensino superior de boa qualidade, descobrindo os caminhos para que isso aconteça.

Para mim, as cotas são uma medida transitória, para acelerar o processo. No entanto, julgo não somente os negros, mas também os brancos pobres têm o direito às cotas. As cotas são uma medida de urgência, porem que se use de critérios econômicos, pois os negros de classe média não precisam de cotas.

“A cota para os negros é uma compensação pelos anos não tiveram acesso ao ensino”.

6. HETEROGENEIDADE

O modelo hegemônico que prevalece na escola brasileira é racista.

Uma cultura é produto de multiplicidade e diferença e não de igualdade.

A valorização do diferente

Algo construtivo

“A aceitação da diversidade humana é um dos caminhos para a construção de um verdadeiro processo educativo”.

O professor ganha com uma classe heterogênea e proporciona as integrações sociais.

 A heterogeneidade é:

Fator imprescindível para interação em sala de aula.

Os diferentes ritmos, comportamentos, experiências, trajetórias pessoais, contextos familiares, raciais, valor e níveis de comportamento de cada criança e do Professor, imprimem ao cotidiano escolar a possibilidade de troca de repertório, de visão de mundo, confrontos, ajuda mútua e conseqüentemente ampliação das capacidades individuais.

7. O PROFESSOR

“O professor tem um papel fundamental na construção e desenvolvimento da subjetividade do aluno”.

Seu papel é proporcionar um bom ensino não somente verbal, mas em vários outros aspectos.

Essa relação esta pautada na transmissão de conteúdo e estimulo das relações sociais, no sentido de que a produção de conhecimento nele envolvida se realiza através de uma relação entre pessoas. Esse processo ainda envolve um caráter político e histórico.

A assimilação por parte do aluno tem relação com o professor à medida que ele se torna mediador na relação de desenvolvimento e aprendizagem.

É o que Vygotsky chama de zona de desenvolvimento proximal, através de soluções de problemas sob orientação de um adulto (Prof.) ou colaboração de um companheiro mais capaz. Nesse caso o aluno define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas estão no processo de maturação. (A Zona de Desenvolvimento Proximal não garante que o aluno aprenda tudo).

Ajuda na inclusão do diferente e na formação da identidade do negro.

O bom ensino é, portanto aquele que se adianta ao desenvolvimento, que se dirige as funções psicológicas que estão em vias de se completarem (Vygotsky).  

A inclusão do negro, sua cultura, suas contribuições, sua força, seu talentos.

O dialogo com as crianças sobre a concepção sobre a realidade e o mundo.

O conflito entre professor / aluno é estruturante e leva ao conhecimento. A partir do conflito (ao enfrentá-lo se aprende coisa novas).

8. O QUE FAZER?

Todos nós podemos contribuir para o enfrentamento do racismo, que não é uma tarefa simples nem fácil.

PERSPECTIVA PARA A EDUCAÇÃO

Como garantir uma educação igualitária e de qualidade para todos, respeitando a diversidade?

Como construir práticas curriculares que contemplem, de forma ética, a diversidade, sem folclorizá-la ou omiti-la, e que, ao mesmo tempo, não se silenciem sobre a mesma?

  • Silva e Monteiro sugerem que as questões raciais devem receber um tratamento explícito utilizando o diálogo como o principal método didático, questionando o cotidiano escolar e combatendo as discriminações como parte integrante do currículo.

(SILVA, P. B.G & MONTEIRO, H.M.Combate ao racismo e construção de identidades 2000:85)

  • Oliveira apresenta a proposta de desenvolvimento do trabalho pedagógico, o trabalho igualitário, a chamada à participação e expressão, pelo professor que, ao não admitir brincadeiras pejorativas com relação à origem racial dos alunos, a promover a desmistificação da África, ao fato de dar ao aluno negro pequenas tarefas que são destinadas aos melhores da sala, contribui para que o aluno negro passe a ser respeitado, uma vez que o professor / a professora o respeita. (OLIVEIRA, R, Seminário de educação: O negro brasileiro educação e cultura, realizado na PUC/RS 1988)

 

  • As crianças e jovens não podem mais ter a escola como uma experiência frustrante, onde são sempre punidas, porque desconhecem a língua culta; discriminadas porque são negras, porque vêm pobremente vestidas; são marcadas por receber sucessivas reprovações como prêmio de origem.

 

  • Não só a escola, mas toda a nossa sociedade precisa passar por uma ruptura dos sentidos que são hegemônicos.

Por exemplo, o padrão considerado ‘ideal’: o homem, branco, adulto, heterossexual, cristão que é considerado como fisicamente e mentalmente perfeito e belo. Este modelo hegemônico é uma clausura e é considerada uma forma de repressão, persuasão onde tudo é transmitido de forma bem suave ou não, mas que a escola deve se posicionar e não se iludir com este modelo sugerido e imposto como ideal.

“O professor deve pensar em formar seus alunos de maneira que eles possam ser maiores do ele mesmos”.

 Criar novos elementos de inclusão                                                       

 – Linguagem (Diálogo)                                               

 – As artes (Música, Pintura, Poesia, etc.).

 

Utilizar a FILOSOFIA                                                                          

  – Como pensar                                                                       

  – Como fazer as crianças pensarem                             

  – Questionar                                                                    

   – Argumentar

  “Os educadores e as educadoras não podem ficar à parte desse movimento. Entender a relação entre escola, currículo e diversidade cultural, seja através do recorte étnico / racial ou tantos outros recortes possíveis, é inserir-se no contexto das lutas sociais, é assumir um posicionamento político e ético que transforme o nosso discurso em prol da escola democrática e da diversidade em práticas efetivas e concretas. Acredito ser essa nossa grande tarefa como educadores”.

“Ensina a criança no caminho que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Pv 22:7).

Edison Vieira Pavão

comentários
  1. alessandra ferreira dos santos disse:

    muito bom seu artigooo….

  2. Cristina Nascimento disse:

    Você teve simplicidade mas teve riqueza nas palavras que usou. Parabéns! concordo com seus argumentos…. Abraços e sucesso.

  3. marcilene oliveira disse:

    também concordo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s