Os primeiros sociólogos

Publicado: abril 24, 2013 em Sociologia

Os primeiros sociólogos

os primeiros sociólogos

Nascido dez anos depois da Revolução Francesa, Augusto Comte (1798-1857) é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, em seu Curso de Filosofia Positiva,

Comte afirmava que a sociedade deveria ser considerada corno um organismo vivo, cujas partes desempenham funções específicas que contribuem para manter o equilíbrio do todo. Ele atribuía particular  importância à noção de consenso, ou seja, às ideias e crenças comuns, partilhadas por todas as pessoas de determinada sociedade, que seriam as responsáveis por manter a ordem nessa sociedade.

Com seu “método positivo” de conhecimento, Comte procurou formular as leis gerais que regem a sociedade. Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a Sociologia passou a ser considerada urna ciência.

Durkheim formulou os primeiros conceitos da nova ciência e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, devendo por isso ser estudados por meio de métodos diferentes dos empregados pelas outras ciências.

Durkheim e os fatos sociais

Durkheim pretendia fazer da Sociologia urna ciência tão racional e objetiva quanto a Física ou a Biologia. Mas, corno fazer isso, se a Sociologia lida com seres humanos que mudam a todo momento, que têm sentimentos, emoções, ideias e vontade própria, ao contrário dos fenômenos físicos ou biológicos?

Durkheim tentou resolver esse complexo problema postulando corno princípio fundamental da Sociologia que os fatos sociais devem ser considerados corno coisas, assim corno urna reação química é urna “coisa” para um químico, isto é, algo objetivo, capaz de ser estudado, analisado, compreendido e explicado racionalmente.

Os fatos sociais seriam, assim, coisas externas e objetivas, que não dependem da consciência individual das pessoas para existir. Os fatos sociais, dizia Durkheim, são “maneiras coletivas de agir ou de pensar” que podem ser reconhecidas pelo fato de exercerem urna “influência coercitiva sobre as consciências particulares”. Ou seja, os fatos sociais têm existência própria e são capazes de obrigar (“influência coercitiva”) as pessoas a se comportar desta ou daquela maneira.

Evidentemente, nem sempre essa coerção pode ser percebida corno tal. Em muitos casos, simples¬ mente nos comportamos corno achamos que deve¬ mos nos comportar. Entretanto, por trás dessa aparente liberdade irrestrita existem hábitos, costumes coletivos, ou mesmo regras, que nós aceitamos corno válidas e nos induzem a assumir certas atitudes. Vejamos corno isso ocorre.

O poder coercitivo dos fatos sociais

Um exemplo simples pode nos ajudar a entender esse conceito. Se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação desconfortável: os colegas ririam dele, o professor lhe daria urna bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para casa para pôr urna roupa adequada.

Existe um modo de se vestir que é comum, que todos seguem (nesse caso, os alunos da escola). Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste ou não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá urna punição (que pode ir, conforme o caso, da ridicularização e do isolamento até urna sanção penal). O modo de se vestir é um fato social.

São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e urna infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo.

De acordo com Durkheim, os fatos sociais são o modo de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora eles sejam exteriores às pessoas, são introjetados pelo indivíduo e exercem sobre ele um poder coercitivo. Resumindo, podemos dizer que, segundo Durkheim, os fatos sociais têm as seguintes características:

• generalidade – o fato social é comum a todos os membros de um grupo ou à sua grande maioria;

• exterioridade – o fato social é externo ao indivíduo, existe independentemente de sua vontade;

• coercitividade – os indivíduos se sentem pressionados a seguir o comportamento esta¬belecido.

A contribuição de Max Weber

Enquanto Durkheim trabalhava na França, na Alemanha destacou-se Max Weber (1864-1920), que defendia outro tipo de abordagem no estudo da sociedade. Para Weber, os métodos de investigação da Sociologia não deveriam seguir o caminho aberto pelas Ciências Naturais, corno queria Durkheim. Isso porque os fatos humanos têm também urna dimensão subjetiva – formada pela consciência e pelas intenções das pessoas -, o que não ocorre com os fenômenos da na¬tureza. Essa dimensão subjetiva, dizia ele, pode e deve ser compreendida e interpretada pela Sociologia.

Na concepção de Weber, a Sociologia é urna disciplina interpretativa e não apenas descritiva. Para ele, não basta descrever as atitudes e relações estabelecidas entre os indivíduos em so¬ciedade, mas é necessário também considerar e interpretar o sentido que as pessoas atribuem às suas próprias atitudes.

Esse método interpretativo só pode ser aplicado ao comportamento humano e é ele que marca, segundo Weber, a diferença entre as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza (veja o texto: Weber e o Espírito do Capitalismo, abaixo).

Na seção a seguir abordaremos um dos con¬ceitos básicos da Sociologia Compreensiva de Max Weber: o de ação social. Quanto à contribuição de Karl Marx, aspectos dela serão estudados mais adiante.

O conceito de ação social

Weber definia a Sociologia corno “urna ciência voltada para a compreensão interpretativa da ação social e, por essa via, para sua explicação causal no seu transcurso e nos seus efeitos”. Desse modo, o pensador alemão introduziu um novo ponto de partida para a Sociologia, um novo conceito sociológico, diverso da noção de fato social tal corno foi proposta por Durkheim. Esse ponto de partida é a ação social dos indivíduos.

Por ação social Weber entendia urna moda¬lidade de conduta dotada de sentido e voltada para a ação de outras pessoas. Nem toda espécie de ação, dizia ele, constitui urna ação social. Por exemplo, não há contato social no fato de duas pessoas se cruzarem em urna rua. Nesse tipo de encontro casual não há propriamente ação social. Haveria apenas no caso de essas pessoas se cum¬primentarem, ou de conversarem, ou de entrarem em conflito, ou ainda no caso de ambas praticarem qualquer ato com significado próprio voltado para urna terceira pessoa. São ações sociais, por exemplo, um jogo de futebol, o contato amoroso entre duas pessoas, urna greve de trabalhadores, urna aula, um ato religioso, etc.

Um desdobramento do conceito de ação social é o de relação social. Ele diz respeito a ações de diversas pessoas, ou agentes, dotadas de sentidos mutuamente relacionados. Nesse caso, a conduta dos agentes se orienta para sentidos compartilhados por todos. Por exemplo, as ações praticadas por pessoas no interior de urna família constituem urna relação social, pois há um significado coletivo compartilhado por todos os membros da família. Esse significado orienta a ação de cada pessoa dessa família levando-a a cultivar certos valores aceitos por todos, corno o respeito pelos pais, o afeto comum, o usufruto de bens corno a casa onde moram, de seus uten¬sílios, etc.

A explicação sociológica em Weber – afirmam Maria Ligia Barbosa e Tania Quintaneiro em Um to¬ que de clássicos – busca compreender e interpretar o sentido, o desenvolvimento e os efeitos da ação social. Compreender urna ação social é captar e interpretar sua conexão de sentido, que será mais ou menos evidente para o sociólogo.

WEBER E O “ESPÍRITO DO CAPITALISMO”

Max Weber aplicou sua Sociologia Compreensiva em diversos textos históricos.

Um dos mais célebres é A ética protestante e o espírito do capitalismo. Nesse livro ele chamou a atenção para a relação entre uma ética que valorizava o trabalho árduo e o espírito de poupança, a ética calvinista, ou puritana – um ramo da religião protestante -, e o espírito racional da burguesia dos séculos XVI e XVII. Em seu estudo, Weber procurou destacar que as diferentes esferas da vida social têm vida própria (autônoma), mas se inter-influenciam de forma constante.

No estudo sobre a “ética protestante e o espírito do capitalismo”, Weber procurava demonstrar a existência de uma íntima afinidade entre a ideia protestante de “vocação” e a contenção do impulso irracional para o lucro através da atividade metódica e racional, em busca do êxito econômico representado pela empresa. Por essa via, apresentava-se a ideia de que um determinado tipo de orientação da conduta na esfera religiosa – a ética protestante – poderia ser encarado como uma causa do desenvolvimento da conduta racional em moldes capitalistas na esfera econômica. [. .. ]

Levantar a ideia de que a ética protestante possa ser encarada como um componente causal significativo para o desenvolvimento do capitalismo moderno (en¬ tendido como tipo de orientação da ação econômica) implica sustentar que, na hipótese da sua ausência, o capitalismo não existiria na forma como o conhece¬ mos. A contrapartida lógica disso é a hipótese de que, sempre que a ética religiosa de sociedades historicamente dadas tenha características significativamente diversas da protestante, isso deveria representar um obstáculo ao desenvolvimento de uma orientação da conduta econômica análoga à capitalista racional. No caso europeu verificava-se uma afinidade interna entre a orientação da conduta nas esferas religiosa e econômica, na medida em que ambas ensejavam um domínio racional sobre os impulsos irracionais e sobre o mundo, mas também pode haver uma tensão entre os sentidos das ações nessas duas esferas da existência. [. .. ]

Weber estava preocupado com refutar a ideia de uma determinação das diversas esferas da vida social pela econômica []. Ao fazer isso, desenvolveu uma concepção que desempenha papel de extrema importância no seu esquema analítico: a de que, no processo que percorrem, as diversas esferas da existência – a eco-nômica, a religiosa, a jurídica, a artística e assim por diante – são autônomas entre si, no sentido de que se articulam em cada momento e ao longo do tempo con¬ forme à sua lógica interna específica [..].

Assim, não é possível encontrar a explicação do desenvolvimento de uma delas em termos do desenvolvi¬ mento de qualquer outra. O máximo que se pode fazer é buscar as afinidades e as tensões no modo como a orientação da conduta de vida (ou seja, da ação cotidiana de agentes individuais) se dá em esferas diferentes. Por essa via pode-se encontrar, ou não, uma congruência entre os sentidos que os homens imprimem à sua ação em diferentes esferas da sua existência e expor essas desco¬bertas a um tratamento causal.

Adaptado de: COHN, Gabriel Weber, 7. ed. São Paulo:Ática, 1999, p. 23-5, Coleção Grandes Cientistas Sociais

A objetividade na análise sociológica

Uma importante característica da observação científica é a objetividade. Diz-se que uma pessoa é objetiva quando ela é capaz de considerar um fenô¬meno sem ideias preconcebidas, sem que se deixe levar por razões pessoais e subjetivas. A objetivi¬dade consiste, portanto, em uma atitude de neutralidade do cientista em relação ao fenômeno ou objeto estudado. Também pode ser definida como a possibilidade do cientista obter resultados sem que seus sentimentos pessoais estejam envolvidos.

O problema, nesse caso, consiste em saber se o sociólogo pode manter realmente uma posição de neutralidade em relação aos fenômenos sociais que observa. De fato, a objetividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências Exatas. Em Matemática, a soma de dois mais dois é igual a quatro, seja ela feita por um católico, um muçulmano ou um ateu. Em contra¬ partida, no estudo de si mesmos e da sociedade, os seres humanos podem se deixar influenciar por seus sentimentos, por ideias preconcebidas, pelas crenças que adotam, pelos valores que aceitam e pelos interesses do grupo social a que pertencem.

Além disso, os cientistas sociais têm também maior dificuldade de submeter suas teses à experimentação. De fato, é muito difícil isolar grandes grupos de pessoas e induzi-los a mudanças para verificar seus resultados, como se faz, por exemplo, em Biologia ou em experiências de laboratório.

Durkheim e Marx

As dificuldades enfrentadas pela Sociologia em relação a essa exigência de objetividade nunca foram plenamente resolvidas. Para Durkheim, a objetividade científica só pode ser atingida em Sociologia caso o sociólogo não se envolva com os fatos estudados. Para isso, é preciso considerá-los como coisas externas. Essa é a condição para que o sujeito do conhecimento (o sociólogo) se separe do objeto do conhecimento (os fatos sociais).

Para Karl Marx, entretanto, essa separação é impossível, pois o cientista social está envolvido pelos fatos sociais desde que nasce. Mais ainda, o sociólogo, corno todo ser humano, é produto das relações sociais que o ligam a determinados grupos da sociedade. Na concepção marxista, a sociedade moderna está dividida em classes, como a burguesia e o proletariado, que lutam incessantemente entre si. Assim, a luta de classes, as greves e as revoluções são resultado da divisão da sociedade em grupos antagônicos. Marx chegou mesmo a afirmar que a história da humanidade é a história da luta de classes.

Durkheim tinha urna opinião diametralmente oposta: ele considerava que essas manifestações eram sintomas de uma espécie de “doença” da sociedade, que chamou de “ano mia”. Em seu entender, a ano mia seria caracterizada pela perda de regras ou de normas corretas de conduta social. Na base desse fenômeno haveria, portan¬to, um desregramento das relações entre o indivíduo e a sociedade. Uma das manifestações da ano mia seria o “antagonismo entre o trabalho e o capital”, ou seja, a luta de classes na sociedade industrial.

Assim, enquanto Durkheim era um defensor da ordem social, das ideias de Marx surgiu uma Sociologia crítica, mais interessada nas mudanças e rupturas no interior da sociedade do que na preservação da ordem estabelecida. Para Marx e seus seguidores, o cientista social não deveria per¬manecer neutro diante dos conflitos sociais, mas assumir a defesa dos interesses do proletariado, classe que para eles seria a portadora das trans¬ formações sociais necessárias para o advento do socialismo.

Objetividade em Max Weber

Max Weber discordava tanto de Durkheim quanto de Marx. Do primeiro, rejeitava a ideia de fato social considerado como coisa externa às pessoas. Do segundo, opunha-se à ideia de compromisso com uma classe social.

Para Weber, é necessário separar o conhecimen¬ to científico, resultado de uma investigação criteriosa, dos julgamentos morais, ou juízos de valor. Segundo ele, a ciência social não deve opinar se o fenômeno estudado é bom ou mau. Cabe ao cientista assumir uma posição de neutralidade: enquanto fizer ciência, o sociólogo deve deixar de lado suas preferências políticas e escolhas ideológicas e consi¬derar as ações e processos sociais com base em uma posição de absoluta isenção e imparcialidade.

Apesar dessas dificuldades e discordâncias, a Sociologia é perfeitamente capaz de analisar os fatos sociais com objetividade. É essa possibilidade que faz dela uma ciência.

O primeiro passo para entender a Sociologia – assim como qualquer outra ciência – é o conhecimento de seus conceitos básicos. Eles definem os fenôme¬nos que fazem parte de seu campo de estudo e diferenciam a Sociologia das outras Ciências Sociais, pois cada urna delas tem seu próprio corpo de conceitos. Como ciência, a Sociologia tem um duplo valor: pode aumentar o conhecimento que o ser humano tem de si mesmo e da sua sociedade, e pode contribuir para a solução de problemas que os atingem.

REFERÊNCIAS

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia: ensino médio, volume único. São Paulo: Ática, 2010.
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